quarta-feira, 17 de abril de 2013
Um positivista ortodoxo
Escrito por Gabriel Guidotti
Quinta, 11 de Abril de 2013 - 16:22
Nas manhãs de domingo, na Avenida João Pessoa, em Porto Alegre, um simpático senhor de barba branca rompe o lacre do cadeado e abre as portas daquele que é o último reduto gaúcho de uma doutrina criada pelo filósofo francês August Comte, o Positivismo. Vestindo um terno suntuoso e uma cartola imponente, como se ainda nos encontrássemos em um passado não tão distante, o Sr. Afrânio Capelli oferece sua história como um brinde àqueles que vivem suas vidas em torno de um ideal.
Nas escadas que levam pórtico de entrada do Templo, Capelli é analítico. Em cada degrau há uma palavra escrita que dirige à religião. A subida, portanto, é escalonada em princípios do Positivismo. A cada domingo, impreterivelmente, Afrânio Capelli, abre as portas do Templo, esperando por pessoas que desejam conhecer mais sobre sua doutrina. Aos 82 anos, compila suas atividades de confrade com o ramo industrial, de onde tira seu sustento. Para a manutenção do Templo, não aceita doações externas. Tudo é mantido por ele e seus companheiros.
Durante sua explanação, fala com emoção e orgulho do Positivismo. Quando inquirido por um visitante se a religião é uma disciplina reacionária, muda seu perfil simpático para um jeito austero que antecede a resposta. Levanta-se de sua bem trabalhada cadeira de madeira e conta que impingiram na cabeça das pessoas a ideia de um Positivismo tirânico, argumentando que foi sim um governo exigente e forte, mas jamais reacionário. Como positivista ortodoxo, defende ferrenhamente os traços da religião, acentuando as dificuldades impostas por ela. “Ser um positivista ortodoxo é quase impossível. Ela exige de seus confrades uma conduta ética que é quase impossível. Mas eu não prego a doutrina religiosa positivista, eu prego o conhecimento sociológico”.
A palestra, entretanto, é interrompida por um barulho que vem do lado de fora. Em ritmo de brincadeiras infantis, os gritos histéricos de algumas crianças desviam a atenção do guardião. Por alguns segundos, cerra as palavras, esperando que o barulho termine. Não termina. Capelli busca, então, se socorrer de seu assessor, o Sr. Érlon, para intervir junto aos pequenos. Na retomada de seu raciocínio, é novamente interrompido por um som alto de rock n´ roll gospel. Tenta continuar, mas o foco de sua mente se dirige à casa ao lado, visível através de uma janela lateral do Templo. A igreja evangélica também estava em sessão. Um grupo de jovens comemorava, através da música, seus valores religiosos. Capelli levanta-se de sua cadeira e retira-se da sala por alguns momentos. Misteriosamente, o som se acaba. Em seu retorno, afirma: “Religião é aquilo que você se concentra para meditar, raciocinar; essa música não é religião, é carnaval”.
Na medida em que debate problemas sociais, dá o recado aos jovens: “qualifiquem-se e façam aquilo que vocês gostam. Se você faz o que você gosta, não é trabalho”. Nesse contexto, define sua infância como a de um menino muito pobre, cujo primeiro sapato decente foi concedido no exército. Mais tarde, visto a falta de oportunidades, estudou “feito um louco”, adentrando o SENAI da Rua Sertório. “Tive a felicidade de, nessa escola, encontrar um professor positivista. Foi ele que me incentivou. Eu o carrego na memória até hoje”. Ao falar de seu antigo mestre, lágrimas sinceras correm por seus olhos. A emoção forte o faz ter um mal estar momentâneo, necessitando de um copo d’água. A saudade é sentida por todos no salão.
Entre explicações históricas, visões políticas ou, simplesmente, interrupções não previstas, Afrânio Capelli encerra sua palestra convidando as pessoas a visitarem as outras localidades do Templo. Despede-se perguntando se há alguma pergunta da plateia. Poucos se manifestam, mas são prontamente atendidos. Os visitantes são conduzidos para o lado de fora onde o Sr. Érlon explica o significado de cada degrau da entrada. Sozinho, Afrânio Capelli permanece no limite do pórtico, apenas observando as pessoas, exibindo uma cara de satisfação. Mais um dia de trabalho bem feito. Uma manhã onde um novo grupo recebeu os mesmos ensinamentos que ele aprendeu com seu falecido professor. Relapso em pensamentos, entra novamente no Templo e lá permanece, como permaneceu durante grande parte de sua vida.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Bons tempos
Por Érik Ultrecht
Em um tempo não muito distante, existia no Estado uma política feita com honra e honestidade. O Rio Grande do Sul teve uma experiência, até bem sucedida, de ser governado por homens que se inspiravam na doutrina e religião positivista de Augusto Comte, que primava pela beleza de uma sociedade livre dos maus exemplos de corrupção, injustiça, preconceito e ódio. É claro que alguns atos de alguns homens daquela época foram reprováveis, como mortes e perseguições injustas, mas essas coisas também ocorrem nos dias de hoje para satisfazer interesses. Naquela época, a maioria dos homens que ocupavam o poder se sentia honrada em fazer política e eram honestos em suas ações, porque no passado os políticos honravam o seu ideal, o seu partido e a sua família.
Aqueles homens, influenciados pelo positivismo, construíram um Estado forte com políticos sérios, interessados no melhor para o Rio Grande e não para eles. Na virada do século 19 e nas primeiras décadas do século 20, políticos que estavam no poder e na oposição disputavam, muitas vezes com derramamento de sangue, a honra de fazer política em nosso Estado. Os chimangos e maragatos, positivistas e federalistas do passado, queriam colocar seus nomes na história do Estado, buscavam unicamente a honra de governar. Hoje, nossos políticos querem unicamente a fama e a riqueza, esqueceram-se dos lemas “viver às claras” e “viver para outrem”, que norteavam as ações dos políticos do passado, em especial dos positivistas que governaram este Estado para o povo com responsabilidade. Aqueles eram bons tempos, que talvez não voltem mais.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
IDEOLOGIA DE VIDA
STF rejeita imunidade tributária para Maçonaria
Por Elton Bezerra
A maçonaria não é uma religião. Com esse entendimento, o Supremo Tribunal Federal rejeitou recurso de uma loja maçônica do Rio Grande do Sul que pedia imunidade tributária. Na decisão, o ministro Ricardo Lewandowski, relator do caso, foi seguido pelos ministro Ayres Britto, Dias Toffoli e Carmén Lúcia, ficando vencido o ministro Marco Aurélio.
Lewandowski rejeitou o pedido de imunidade tributária ao concordar com decisão que considerou a maçonaria uma “ideologia de vida” e não uma religião. “Nessa linha, penso que, quando a Constituição conferiu imunidade tributária aos ‘templos de qualquer culto’, este benefício fiscal está circunscrito aos cultos religiosos", disse o relator.
Para fundamentar sua tese, Lewandowski citou trecho de texto do site da Grande Loja Maçônica do Rio Grande do Sul que diz que [A Maçonaria] “não é religião com teologia, mas adota templos onde desenvolve conjunto variável de cerimônias, que se assemelha a um culto, dando feições a diferentes ritos”.
Os argumentos, porém, não convenceram o ministro Marco Aurélio, que considerou a interpretação de Lewandowski mais restritiva do que a leitura literal da Constituição. “No mais, o voto do ilustre relator acaba por promover uma redução teleológica do campo de aplicação do dispositivo constitucional em comento. É dizer: revela-se ainda mais restritivo que a interpretação literal da Lei Maior”, afirmou.
Segundo o artigo 150 da Constituição Federal, inciso I, alínea b, é vedado instituir impostos sobre "templos de qualquer culto".
“Há inequívocos elementos de religiosidade na prática maçônica. No mais, atentem para a norma constitucional: ela protege o culto. E este consiste em rituais de elevação espiritual, propósitos intrincados nas práticas maçônicas, que, se não podem ser classificadas como genuína religião, segundo a perspectiva das religiões tradicionais — e o tema é controverso —, estão dentro do escopo protetivo da Constituição de 1988”, justificou em seu voto-vista.
Marco Aurélio disse que, embora haja disputa em torno do conceito de religião, numa perspectiva menos rígida, afirma ser possível classificar maçonaria como corrente religiosa.
“Há uma profissão de fé em valores e princípios comuns, inclusive em uma entidade de caráter sobrenatural capaz de explicar fenômenos naturais — basta ter em conta a constante referência ao ‘Grande arquiteto do Universo’, que se aproxima da figura de um deus. Está presente, portanto, a tríplice marca da religião: elevação espiritual, profissão de fé e prática de virtudes”.
Para o ministro, a decisão contraria entendimentos anteriores do Supremo, já que decisões da corte conferiram uma interpretação ampla às imunidades. “Essa corrente se expressa, por exemplo, no reconhecimento da imunidade aos álbuns de figurinhas”, relembrou Marco Aurélio.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Participação de Falecimento
Prezados confrades e amigos
Com pesar informamos o falecimento do Sr.Osmar Pimentel Batista da Cunha,
dileto e antigo colaborador de nossa instituição.
Acreditamos na transformação derradeira e convergente como primeiro passo
para a garantia de uma imortalidade subjetiva, unindo este nosso querido ente
novamente à sua grande e eterna casa, a natureza.
O corpo está sendo velado na Capela " J " do Cemitério São Miguel e Almas e
o sepultamento será as 15h de hoje (31/05/2012).
Pedimos à todos nestes dias os mais elevados pensamentos e considerações
sobre este querido amigo.
Saúde e fraternidade
Afranio Pedro Capelli
Guardião do Templo Positivista de Porto Alegre
www.positivismors.blogspot.com
Cemitério São Miguel e Almas
Avenida Professor Oscar Pereira, 400 - Azenha
Porto Alegre / RS
Telefones: (51) 3227-2766 (51) 3223-2930
http://www.cemiteriosaomiguel.org.br
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Uma sede para a ARL
Intelectuais querem ocupar a Confeitaria Rocco
O presidente da Academia Rio-Grandense de Letras, Sérgio de Borja, esteve reunido na manhã desta quarta-feira (2/5) com o presidente da Câmara Municipal, vereador Mauro Zacher (PDT), pedindo a interferência do Legislativo junto ao Executivo, no sentido de que o prédio histórico da Confeitaria Rocco, localizado na esquina da Riachuelo com Dr. Flores no Centro Histórico de Porto Alegre, seja destinado à academia que pretende ocupá-lo instalando sua sede própria.
Segundo Borja, o objetivo é buscar parcerias, público-privado, formando uma sociedade de amigos aos moldes do que é hoje o Theatro São Pedro, com a criação de espaços dinâmicos para lançamentos de livros, conferências, exposições e mantendo, inclusive, a confeitaria que faz parte da história da Capital freqüentada pela grande maioria dos intelectuais gaúchos, observa.
O historiador Moacir Flores, membro da Academia e presente à reunião desta manhã na Câmara, observa que a instituição possui uma pinacoteca com uma série de quadros doados por artistas de todo o país, e lamenta: “infelizmente não temos paredes para colocá-los”.
A Academia Rio-Grandense de Letras integra 40 escritores e funciona hoje numa pequena sala na Rua dos Andradas, o que não é um local adequado para receber escritores de outros estados e realizar encontros, conferências e seminários, observa o vice-presidente Avelino Collet.
Audiência
O presidente da Câmara se comprometeu a marcar uma audiência com o prefeito José Fortunati, para que o pedido da Academia seja oficializado. Zacher também vai destinar o espaço da Tribuna Popular na Câmara para que os poetas e escritores possam se manifestar a respeito do projeto para a sede própria.
Participaram da reunião o vereador Airto Ferronato (PSB), além dos acadêmicos Heino Willy Kude, Élvio Vargas e Zélia Helena Sampaio.
terça-feira, 1 de maio de 2012
Moysés Westphalen por Fernando Westphalen (in memorian)
Moysés Westphalen foi sempre, em toda as ocasiões de sua vida, um homem religioso.
Um positivista religioso.
Buscou aperfeiçoar-se o tempo todo, lendo, estudando, convivendo com as pessoas, ouvindo (que grande ouvidor ele era!), pacientemente, ainda que o que lhe contassem não passasse de uma grande besteira.
Para todos tinha uma palavra de fé no gênero humano, compreendendo as nossas falhas, citando sempre a frase adequada de seu mestre "Augusto Comte".
A impaciência da mocidade diante dos desmazelos da política e dos governantes era recebida com muita simpatia por ele, que nos explicava:
"Os sentimentos são muito importantes para o desenvolvimento do ser humano, mas as vezes perturbam a razão , levando-nos a cometer erros.
As verdades sociológicas não se alteram por nossa vontade.
Precisamos nos despir das vaidades , as vezes inconsciente, que nos leva a supor que podemos mudar o mundo como num passe de mágica.
Podemos mudar o mundo, sim, com nossa pregação constante e principalmente através do exemplo.
Mas a natureza não faz saltos - as mudanças surgem lentamente e precisamos ter consciência disso para não sofrermos grandes frustrações.
Dizia-nos essas coisas de maneira sempre simples, nunca professoral, embora fosse ele um professor de profissão.
Ele que foi um exemplo em tudo na vida.
Um exemplo de pai dedicado, sempre ao lado de sua companheira. acompanhado-a com carinho e resignação o longo período (14 anos) em que, irremediavelmente enferma se encaminhava para a morte.
Um exemplo de Pai, que NUNCA mediu esforços para dotar seus onze filhos com o melhor que seus recursos financeiros podiam pagar.
Nunca faltou a roupa digna ,a boa comida, o melhor remédio , a melhor escola - a nenhum deles.
Mas o mais importante é que nunca lhes faltou a compreensão, o conselho na hora certa e o imenso carinho, ás vezes disfarçado.
Parece que ele tinha um certo pudor em manifestar seu imenso "coração".
Um exemplo de amigo , que nunca negou a ninguém uma palavra de compreensão e que, muitas vezes , sacrificou muitas coisas para ajudar financeiramente os que lhe pediam socorro.
E mantinha sempre em segredo essas ajudas, de modo que nunca ninguém soube o seu montante.
Mesmo sem condições para tal, assumia e pagava de seu bolso os consertos urgentes que a Capela positivista necessitava, sem nunca reclamar.
Moysés Westphalen foi um exemplo magnífico da raça humana, um exemplo para os que o sucedem.
Um exemplo de homem público que nunca esmoreceu em sua luta para resgatar a dignidade de nossos irmãos indígenas, esbulhados pelo poder Público no que tinha de mais sagrado - as suas terras.
Escreveu por mais de quarenta anos na imprensa gaúcha contra a injustiça social , clamando por reparação .Influenciou autoridades , assessorou deputados, participou de CPI , representou , usou todas as tribunas para batalhar pela CAUSA DO ÍNDIO, nunca esmorecendo e nunca pedindo nada , a não ser o que era do índio - de fato, e que lhe foi tomada a força pelo homem branco.
Sabia que a luta era inglória, mesmo assim lutava cada vez mais , porque "essa é uma causa justa.A redenção do índio , como previa RONDON , esse grande positivista, está em jogo. Não podemos esmorecer nunca."
" Texto escrito por Fernando Westphalen(in memorian) na ocasião da transformação de seu pai e nosso eterno Mestre Moysés Westphalen, garantido assim a merecida imortalidade subjetiva destes diletos, atuantes e convergentes confrades positivistas adeptos e fiéis seguidores ´propagandistas da religião da humanidade. "
domingo, 22 de abril de 2012
A “LEI DOS TRÊS ESTADOS” : primeira lei da sociologia
Em seu monumental Curso de Filosofia Positiva, compreendendo sessenta lições em seis alentados tomos, o
primeiro dos quais publicado 1830, declara Augusto Comte haver descoberto a lei que rege a evolução
das concepções humanas, ou seja, o modo de pensar ou de raciocinar da Humanidade. Segundo ele,
nossas concepções passam, necessariamente, por três estados ou formas de pensar, a saber: o Estado
Teológico ou Fictício( forma teológica de pensar), o Estado Metafísico ou Abstrato ( forma metafísica de
pensar) e o Estado Positivo ou Científico( forma científica de pensar). A essa regra constante, Comte
denominou “ Lei dos Três Estados” e, ao fazê-lo, enunciou a primeira lei da sociologia. Note-se que a Lei
dos Três Estados nada tem a ver com períodos de tempo ou fases da história. Ela diz respeito apenas aos
modos como as pessoas pensam ou raciocinam a qualquer tempo.
O primeiro Estado ( ou forma de raciocinar) , “ Estado Teológico”, divide-se em três sub-estados (
fetíchico, politeísta e monoteísta).No primeiro sub-estado, a forma de pensar das pessoas leva-as a atribuir
todos os fenômenos de ordem objetiva ou subjetiva à ação de seres inanimados, aos quais emprestam as
mesmas qualidades dos seres humanos, tais como vontade, poder,sentimentos e outras. O que caracteriza
o fetichismo, na concepção de Augusto Comte, é essa atribuição de poder, vontade, sentimentos e outras
qualidades humanas aos objetos,aos seres inanimados. É pensar, imaginando que a “macumba” é ritual
capaz de produzir certos efeitos ( dizia Nenen Prancha, o filósofo do futebol de areia : “ Se macumba
fosse eficaz, o campeonato baiano acabaria empatado”); ou raciocinar com base na crença de que tais
ou quais objetos têm o poder ou capacidade de proteger o indivíduo dos fenômenos naturais, tais como
medalhinhas, amuletos,figas e outros ; é a “água benta”, os “ banhos de ervas”, “ as velas acesas nos
altares e nas ruas”, as “pajelanças” “as exorcisações” e outras práticas semelhantes. São concepções que
representam a “infância mental ”da Humanidade, exatamente como se dá com a infância humana, em que
a criança atribui aos seres inanimados as mesmas vontades e sentimentos próprios dos seres humanos.Daí
ver-se que a criança conversa com a boneca, atribuindo-lhe todas as qualidades dos seres humanos,
sobretudo os sentimentos. Nosso linguajar traz exemplo desse modo de pensar, quando dizemos “ o carro
não quer pegar”, como se o motor de um carro tivesse vontade.
Desse primeiro sub-estado ou forma de pensar, evoluiu-se para o segundo sub-
estado ou forma de raciocinar, que é o politeico, em que os fenômenos naturais já
não são atribuídos a seres inanimados, a objetos, mas à ação aparentemente arbitrária
de diversas divindades, cada uma responsável por uma categoria de fenômenos:
no politeismo, havia “ deuses” para presidir todos os fatos da vida, tais como, a
caça,a guerra, a paz, a doença, a saúde, a colheita, as pestes,enfim, para desencadear
todos os fenômenos que afetavam a Humanidade. Daí a necessidade de o homem
permanentemente cultuar essas divindades e aplacar-lhes a ira, fazendo-lhes oferendas
e até sacrifícios humanos , afim de obter os resultados desejados: saúde, uma boa
colheita, a paz etc. Em Roma, chegou-se a erguer um Templo ao Deus Desconhecido,
tal era o temor dos romanos que, por falta de culto próprio, esse deus desconhecido
fizesse recair sobre o povo romano as maiores desgraças. Os deuses do politeísmo
grego e romano são de todos conhecidos (tais como Netuno/Poseidon, deus dos mares;
Diana, deusa da caça; Apolo, deus da Luz; Afrodite/ Venus, deusa do amor e da beleza;
Minerva, deusa da sabedoria e das artes; Júpiter/ Zeus, deus dos céus e do tempo, a
mais importante das divindades do politeismo; e uma miríade de outros).Muito embora
esses deuses tenham governado a Terra por milênios, o progresso de nossas concepções,
ou seja, de nosso modo de raciocinar, e o desenvolvimento do espírito científico fez
com que todos esses deuses desaparecessem sem deixar rastro. Ninguém pode “ provar”
que Netuno não existe. Foi o progresso intelectual da Humanidade que tornou esses
deuses desnecessários.
Com o evoluir dos tempos, passaram os homens a pensar que não havia um deus
específico para reger ou presidir cada fenômeno; que todos os fatos de qualquer
natureza, eram sempre decorrentes da vontade e do poder de um só deus, a quem
passaram a atribuir três poderes absolutos: onipotência( tudo poder), onisciência( tudo
saber) e onipresença ( estar em todos os lugares ao mesmo tempo). Aliás, esses três
poderes absolutos atribuídos à divindade podem deixar os crentes em dúvida quanto
à alegada bondade infinita da divindade, porque, sendo ela onipotente, omnisciente
e onipresente, terá certamente sabido que em 11 de setembro de 2001 ia ocorrer o
ataque às Torres Gêmeas em NY(omnisciente); estava lá quando o ataque ocorreu (
onipresente) e podia tê-lo evitado(onipotente) poupando vidas humanas, mas não o
fez. Recentissimamente, em sua visita a um dos famosos campos de concentração
da Alemanha nazista, o Papa Bento XVI teria se perguntado: “ Onde estava deus ?”.
Estivesse eu lá, e teria respondido , que deus estava presente ao massacre dos judeus,
que sabia que ele ia ocorrer e que podia tê-lo impedido, mas não o fez. Aliás, em
matéria de “absoluto” é sempre bom lembrar a máxima de Augusto Comte: “ Tudo é
relativo; eis o único princípio absoluto”.
Agora, era preciso agradar e aplacar a ira de um só deus, através do culto, das
oferendas e de outras formas que demonstrassem a submissão do homem à vontade
desse deus único. Pessoas criadas no catolicismo fazem “ promessas” a certos santos,
afim de obterem determinados resultados, quer em relação a si próprios,quer em relação
a terceiros.( Aliás, o Catolicismo, de certa forma, substituiu os deuses do politeismo
pelos santos, havendo-os para todos os fins e todos os gostos e, no Brasil, temos
também o sincretismo dos santos do Catolicismo com as “entidades” dos cultos
africanos: orixás, oguns, mães de santo e outras). Na Antigüidade, fazia-se o sacrifício
de seres humanos e depois de animais;hoje, há os que se impõem certos
sacrifícios(“promessas”) como forma de obter uma “graça” provinda de algum ser
sobrenatural. Há um episódio interessante ocorrido com Anatole France, o grande
romancista francês, que era radicalmente ateu. Certo dia, seus amigos ponderaram que
ele não devia continuar assim; que devia visitar a Gruta de Lourdes, onde veria milhares
de muletas penduras nas paredes , lá deixadas por aqueles que obtiveram a graça da
Santa e recuperaram a capacidade de andar. E Anatole France limitou-se a fazer uma
pergunta: “ Nenhuma perna de pau?”. Sabemos que os traumas psicogênicos podem
causar a perda da visão, da fala e de outros sentidos e até causar paralisia. Esses
choques são, muitas vezes, reversíveis, e pelo mesmo “instrumento” que os causou, ou
seja, pela motivação psicológica. Assim, a pessoa que está absolutamente convicta de
que a santa vai curá-la, pode predispor seu cérebro a agir nesse sentido e reverter o
processo de perda. Daí a força da “ fé”, que, evidentemente,só funciona em relação à
própria pessoa que sofreu a lesão de origem psicogênica( muito embora certas pessoas
acreditem que a torcida por uma equipe esportiva vai levá-la à vitória !) Mas, quando
se dá a perda de um órgão, de um membro( perna, braço), aí não há fé, não há santo,
não há deus que consiga fazer nascer outro. Alguns animais, segundo consta, têm a
capacidade de reproduzir membros perdidos. Assim, parece que as lagartixas podem
refazer o rabo perdido. Temos o “mimetismo” que é a possibilidade de determinados
animais mudarem de cor e confundirem-se com o meio para fugir de um predador.
Temos também o fenômeno da “ metamorfose”, em que a lagarta morre e, ao cair a
casca que a envolvia, surge uma libélula ou borboleta. São todos fenômenos estudados e
explicados pelos zoólogos, nada havendo de “sobrenatural” neles. É interessante notar
que a “ fé” é exatamente o instrumento dos “placebos” que os médicos receitam para
pacientes que sofrem de doenças psicogênicas, ou seja, uma pílula ou cápsula que não
contém qualquer medicamento, mas apenas açúcar, farinha ou outro material inócuo,
mas que o paciente julga conter o medicamento que vai curá-lo. E, tomando o placebo,
com a “ fé” de que vai fazer efeito, acaba conseguindo condicionar o cérebro a
promover a cura desejada. É também conhecido o “efeito” médico, cuja simples
presença, muitas vezes, faz com que o paciente se sinta melhor. Da mesma forma em
que há a “hipertensão” do jaleco branco, isto é, o simples fato de o médico colocar o
aparelho de pressão no braço do paciente faz com que a pressão arterial deste aumente,
por temor. E quanto menor o grau de instrução da pessoa, mais sujeita está ela a esse
tipo de reação emocional. Da mesma forma que ocorreu com os deuses do politeísmo,
entende o Positivismo que o advento do Terceiro Estado, o estado científico ou
positivo, é inelutável, sendo apenas uma questão de tempo para que a Humanidade
passe a raciocinar cientificamente, ou seja, sem atribuir os fenômenos à ação de entes
sobrenaturais ou forças cósmicas. Assim como desapareceram os deuses do politeísmo ,
também o deus único do monoteísmo está fadado a desaparecer com o progresso do
espírito científico, sem que seja necessário provar sua inexistência. Ele simplesmente
deixará de ser útil ou necessário para a sobrevivência da espécie humana e para explicar
os fenômenos de qualquer natureza. Por isso, não há proselitismo no Positivismo. Quem
se interessar pela doutrina poderá estudá-la, lendo as obras originais do grande filósofo
ou livros escritos por positivistas, mas neles não encontrará a tentativa de “ converter” o
leitor à doutrina de Augusto Comte.
Quando lembramos dos sofrimentos que tiveram os primeiros “cristãos”, que
eram atirados às feras no Coliseu de Roma, não podemos esquecer que, ao renegarem
o politeismo e abraçarem o monoteismo, eles estavam ofendendo os deuses que, no
entender do povo romano, comandavam a vida humana em todos os seus aspectos.
E, por isso, tinham que ser sacrificados. Das mesma forma que a Igreja Católica, no
período negro da história da Humanidade conhecido como a “ Inquisição”, colocava
na fogueira os “ hereges”, ou seja, aqueles que não aceitavam a doutrina da Igreja.
Portanto, o comportamento bárbaro dos romanos – em homenagem aos deuses do
politeismo – em nada diferiu do comportamento bárbaro da Igreja Católica, em defesa
de sua doutrina.
Com o progresso do espírito humano, sugiram pensadores que passaram a atribuir a
ocorrência dos fenômenos não mais à vontade arbitrária de vários deuses ou de um só
deus, mas a forças cósmicas, a energias, ou a isso a que chamam “natureza”. Ou seja,
substituíram a ação das divindades pela ação de entidades. Esse o segundo Estado a que
se refere Augusto Comte , e que ele denominou Metafísica ou Estado Abstrato, forma
de pensar que representa a “adolescência” do espírito humano, e que nada mais é do que
um Estado intermediário que serviu para solapar o Estado Teológico ( ou seja, o modo
de pensar teológico) e preparar o caminho para o Estado Positivo( ou seja, a forma
científica de pensar). A Metafísica nada cria; não observa os fenômenos para determinar
as leis que os regem.Limita- se a “imaginar” causas primeiras, todas atribuídas à ação
de entidades (forças ). Preocupa-se com o “por que” e não com o “ como”. Preocupa-
se com a causa dos fenômenos, mas não lhes determina o processo. Quer saber por que
há energia, mas não sabe como ela se produz nem como atua. A Metafísica que, como
dissemos, corresponde à adolescência da Humanidade, perde-se em divagações, imagina
causas, satisfaz a imaginação,mas não resulta em nada de prático para a Humanidade. É
verborragia pura. Dizia Voltaire que quando duas pessoas discutem e uma não entende a
outra, estão discutindo Metafísica; quando elas não se entendem nem a si mesmas, estão
discutindo alta Metafísica !
Em sua maturidade, as concepções humanas ( forma de pensar, de raciocinar) passam
a basear-se na observação dos fenômenos para daí prever sua ocorrência e, se possível ,
defender o homem de possíveis efeitos maléficos. É o Estado Positivo, Científico ou
Lógico, em que o homem observa os fenômenos para saber quais as leis que os regem e
daí prever sua ocorrência e prover para o resguardo da Humanidade. Por isso, Augusto
Comte dizia que fazer ciência é “ saber,para prever, afim de prover”. E o saber parte
sempre da observação e não da imaginação.
É preciso frisar, porém, que os Três Estados não são estanques, isto é, não é necessário
que desapareça o fetichismo para que surja o politeismo, nem é necessário que este
acabe para surgir o monoteismo. Da mesma forma, a Metafísica convive com o Estado
Teológico e o Estado Científico ou Positivo coexiste com a Teologia e a Metafísica.
A evolução de um Estado para outro é lenta. Ou seja, as gerações levam muito
tempo para abandonar uma forma de raciocinar e adotar outra. Assim, enquanto
milhões de indivíduos continuam, em pleno século XXI, presos ao fetichismo (
macumba, água benta, santinhos etc), à teologia e à metafísica, outros milhões já se
vão libertando dessas crenças e passando a pensar de acordo com os dogmas baseados
no conhecimento científico, que é, necessariamente, lento, mas o único que pode dar
respostas exatas para os muitos fenômenos de ordem objetiva ou subjetiva que afligem a
Humanidade. O fato de ainda hoje não termos respostas para todas as perguntas que nos
ocorrem não significa que a ciência não possa fazê-lo, mas apenas que ainda não teve
tempo de chegar lá.
Portanto, quando se fala na Lei dos Três Estados, não se está a pensar em
compartimentos estanques, ou seja, que até determinado momento a Humanidade
pensava teologicamente, depois passou a pensar metafisicamente e por fim passou a
pensar positiva ou científicamente. Não. Os Três Estados, que são apenas formas de
raciocinar, convivem não apenas nas sociedades, mas nos próprios indivíduos, até
que estes consigam livrar-se de toda a herança teológica e metafísica que beberam
no leite materno e passem a agir de conformidade com os postulados científicos.
Assim, é comum encontrarmos quem pense cientificamente em matemática,
astronomia, física, química e biologia( ou seja, não admite a interferência de seres
sobrenaturais, divindades ou forças como os responsáveis por esses fenômenos); pense
metafisicamente em sociologia e pense teologicamente em moral ou psicologia. Os
Três Estados podem conviver na mesma pessoa e só uma educação adequada pode levá-
la a pensar cientificamente em relação às sete ciências. Digo sempre aos interessados
que muitas pessoas são parcialmente positivistas, sem se darem conta disso. Assim, no
exemplo acima, essa pessoa é 5/7 positivista, porque pensa positivamente em relação a
5 ciências.
Tinha um amigo médico que recomendava sempre às famílias de seus clientes que se
viam vítimas de alguma moléstia infecciosa, que continuassem a rezar e a acender
velas, mas que não deixassem de dar o anti-biótico de 8 em 8 horas!
Augusto Comte elaborou uma “ classificação das ciências” que até hoje não encontrou
refutação séria; nem apareceu outra que a substituísse. Com base no princípio da “
complexidade crescente e generalidade decrescente dos fenômenos correspondentes”,
propôs ele a seguinte ordenação: matemática, astronomia, física, química, biologia,
sociologia e moral( ou psicologia). Registre-se que o termo “sociologia” foi por ele
criado, bem como a palavra “altruísmo”.
À medida em que avança o conhecimento científico, as concepções teológicas e
metafísicas vão perdendo terreno. Assim, salvo em populações extremamente atrasadas,
ninguém mais atribui os fenômenos matemáticos, astronômicos, físicos, químicos e
biológicos à ação arbitrária de divindades ou forças. As leis que regem esses fenômenos
são bem conhecidas e não há lugar para raciocinar-se teológica ou metafisicamente
nessas matérias. Quem joga uma pedra para o ar sabe que ela vai cair em razão da força
da gravidade, não havendo deus ou força cósmica que impeça sua queda.
Como a sociologia ainda não atingiu o necessário grau de positividade, por não
haverem os sociólogos aplicado ao seu estudo o método científico, como preconizava
Augusto Comte, ainda encontramos quem tente explicar metafisicamente os fenômenos
sociológicos. Mas o tempo cuidará de corrigir essa falha. No Direito, por exemplo,
ainda há muitos conceitos metafísicos, tais como , “ soberania popular” , “liberdade
democrática” e outros.
Hoje em dia, a única área que ainda se apresenta livre para especulações de natureza
teológica ou metafísica é a representada pela ciência que Augusto Comte colocou
no topo de sua classificação ,por ser a de maior grau de complexidade : a moral ou
psicologia. Não obstante o progresso que já se fez na observação dos fenômenos
psicológicos, são eles ainda campo fértil para fantasias teológicas e sobretudo
metafísicas, que não partem da observação dos fenômenos correspondentes,mas da
simples imaginação. Quando falou-se na “ introspecção” como forma de observar-se
o fenômeno psíquico ( ou seja, o próprio indivíduo se observando), Augusto Comte
ponderou que, para tanto, seria necessário um órgão externo que pudesse observar os
fenômenos, pois é impossível o próprio olho do indivíduo ver como se dá o fenômeno
da visão; seria necessário um observador externo para ver o funcionamento do cérebro.
Ao criar a psico-análise, parece-me que Freud estava tentando criar o “observador
externo” de que falava Augusto Comte. Aliás, se não me falha a memória, Freud
escreveu que foi lendo um artigo de Augusto Comte sobre as funções cerebrais que se
deu conta da importância dos sonhos para a pesquisa dos fatos psíquicos.
Para os que estudaram a obra de Augusto Comte no original ou em trabalhos escritos
por positivistas, não se contentando com versões de segunda ou terceira mão escritas
por autores que quase sempre se mostram hostis ao Positivismo, abertamente, ou não,
é interessante notar como suas recomendações vão,aos poucos, sendo aceitas, sem que
as pessoas se dêem conta de que foi ele quem primeiro tratou do assunto. Assim, por
exemplo, dizia ele que a medicina devia estudar o organismo humano como um todo,
dadas as influências recíprocas do moral sobre o físico e do físico sobre o moral.Ou,
em palavras atuais, a influência dos fenômenos psíquicos sobre os físicos e destes sobre
aqueles. Modernamente, é o que se denomina “ medicina psico-somática”, que leva
em consideração tanto os fenômenos físicos, quanto os psíquicos e,sobretudo, suas
influências recíprocas.
Da mesma forma, Augusto Comte
propôs, em seu “Sistema de Política Positiva
ou Tratado de Sociologia”, publicado muitos anos após a hecatombe da Revolução
Francesa, que a França fizesse três reformas : uma de ordem moral ( substituindo a
teologia pelo conhecimento científico, ou seja , abandonando o“ dogma revelado” pelo “
dogma demonstrável” baseado na ciência); uma de ordem política, criando nova forma
de governo para substituir a monarquia; e uma social , começando pela incorporação
do proletariado à sociedade, ou seja,realizando o que atualmente se chama “ inclusão
social”.
Outras muitas recomendações de Augusto Comte , se adotadas, seriam de grande
utilidade no mundo moderno. Dentre estas, destaco: o lema do desenvolvimento social
(“ O amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim”- note-se que não
se trata de uma sucessão, como Noel Rosa e Orestes Barbosa julgaram ao comporem
o samba “`Positivismo” : princípio significa “regra” e fim significa “ objetivo”); o
lema do desenvolvimento político (“ Ordem e Progresso”), já que o Progresso é
necessariamente o desenvolvimento da Ordem, e sem esta não há Progresso( aliás,
segundo Augusto Comte , o grande desafio político do futuro seria conciliar a Ordem
com o Progresso, de forma que a Ordem não seja tão retrógrada que impeça o Progresso
nem este tão anárquico que destrua a Ordem). Foi por isso que Teixeira Mendes - que
se tornou Diretor do Apostolado Positivista depois da morte de Miguel Lemos em 1917,
este o Fundador da Igreja Positivista do Brasil- ao conceber a Bandeira Brasileira, nela
consignou o lema “ Ordem e Progresso”, que era o anseio dos que proclamaram nossa
República em relação ao futuro do Brasil.
“ Viver às claras” , lema que seria de grande utilidade na administração
pública; “Viver para Outrem”, que é o lema da solidariedade social; “Agir por
afeição,mas pensar para agir”;“ A educação do coração sempre se sobrepõe
à educação do cérebro”;“ O aperfeiçoamento individual se dá pela expansão
do altruísmo e pela compressão do egoísmo”; “A educação da criança deve ir
sucessivamente do culto à família, ao da Pátria e ao da Humanidade”.
Muitas pessoas me perguntam se é correto dizer-se que Augusto Comte criou
uma “ religião”. Sim, desde que não se ligue a palavra religião, necessariamente,
a dogmas teológicos. O que ele denominou “Religião da Humanidade” pode ser
melhor compreendida como forma de educação,lembrando sempre que ele distinguia
a “educação” da “ instrução”. Esta visa ao cérebro e objetiva a dar conhecimentos
que permitam ao individuo aumentar sua cultura; aquela visa ao coração e objetiva
a tornar o homem mais altruísta, mais sociável, mais solidário. A Humanidade é o
conjunto convergente das gerações passadas, presentes e futuras, isto é, de todos os que
contribuíram, contribuem e ainda contribuirão para a felicidade e o bem estar dos seres
humanos. O homem jamais poderá retribuir os benefícios que a Humanidade lhe trouxe
e só ela, através das sucessivas gerações, tem a capacidade de resolver os problemas que
afligem o gênero humano e trazer-lhe a sempre almejada felicidade através do amor, da
ordem e do progresso. A Religião da Humanidade visa a tornar o homem mais fraterno,
mais altruista e mais solidário.
Durante nosso primeiro período republicano, tivemos o Ministério da Instrução
Pública, sob o comando do grande Benjamin Constant, o verdadeiro fundador da
República Brasileira. Educação, segundo a doutrina positivista, não é função do Poder
Público, mas da família, das escolas particulares e das igrejas, já que o Positivismo
prega a plena liberdade espiritual ( liberdade de expressão, de crítica, de ensino, de
culto etc) com a total separação da Igreja do Estado. As escolas públicas devem ser,
necessariamente, laicas, isto é, sem qualquer orientação religiosa, que é função das
famílias, das igrejas e das escolas religiosas. A separação do Estado das Igrejas não
significa hostilidade. Significa absoluta neutralidade. Os Poderes Públicos não devem
hostilizar,nem beneficiar quaisquer cultos. Devem respeitá-los, na medida em que não
sejam ofensivos à dignidade humana , à lei ou à ordem pública.
Por vezes perguntam-me como pode um culto religioso ser ofensivo à dignidade
humana. Respondo, dizendo que um culto que previsse o sacrifício humano ( como
ocorria na Antiguidade), traria essa pecha.
Como seria ofensivo à lei ? Se temos,por exemplo, a lei do silêncio, uma igreja que
coloque alto-falantes em seu prédio e transmita prédicas nas horas em que a lei exige
silêncio, estará violando a lei.
E como haveria ofensa à ordem pública? Através de manifestações públicas que sejam
constrangedoras ou ameaçadoras para os não-participantes, ou que perturbem a vida da
coletividade, tais como procissões e desfiles que impeçam o tráfego ou façam ruído
excessivo.
É preciso notar que o monoteísmo , por sua própria natureza, tende a tornar seus
adeptos intransigentes, quando não fanáticos. Ainda estamos assistindo em nossos dias a
manifestações de intransigência e fanatismo religioso em várias partes do mundo.E tudo
em razão do monoteísmo, já que pela própria natureza ele é exclusivista.
Portanto, a questão da educação religiosa é muito importante. É preciso evitar, a todo
custo, que a crença em determinada divindade leve os crentes à irracionalidade, à
intransigência e, sobretudo, ao fanatismo.
Nossa primeira Constituição Republicana, promulgada em 1891, consagrava, por
influência dos positivistas que participaram de sua elaboração ( Julio de Castilhos, Silva
Jardim, Quintino Bocayuva, Borges de Medeiros e muitos outros), a mais ampla
liberdade em matéria de culto, única forma de evitar-se o desvirtuamento do sentimento
religioso. É preciso que as pessoas sejam livres para escolherem a religião que
quiserem, o culto que preferirem e, igualmente, de não terem qualquer religião e não
aderirem a qualquer culto religioso. Uma sociedade só será efetivamente livre quando
os cidadãos puderem, sem receio de perseguições ou sem constrangimento, optar por
qualquer religião ou não optar por nenhuma,mantendo-se fielmente ateus.
Rio, 2009
Condorcet Rezende
Assinar:
Postagens (Atom)
